
Brasão de Sua Excelência Reverendíssima,
Dom Samuel Ferreira de Lima OFM,
executado por Rodrigo Athanilio dos Santos
No dia 25 de novembro de 2024, Sua Santidade, o Papa Francisco, nomeou Monsenhor Samuel Ferreira como Bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus. Ao final do mesmo ano, este modesto artista foi encarregado de criar e ilustrar seu brasão, de acordo com as normas heráldicas. O trabalho foi entregue no Ano Jubilar da Esperança, em 16 de janeiro de 2025.
O brasonamento oficial é o que se segue: De prata com um tau de vermelho e um pé ondado endentado de negro e de ouro de três peças; mantelado triplo de azul com três estrelas de oito raios de ouro em roquete. O lema é “Ex anima voluntatem Dei facere”, cumprir com toda a alma a vontade de Deus. O escudo é ornado externamente pela cruz processional e, em razão da dignidade episcopal de seu armígero, por um galero verde com doze borlas.
Na heráldica, o branco é chamado de prata. O campo é de prata por uma questão de sobriedade. É costumeiramente branco o espaço vazio numa tela de pintura ou folha de papel, e consequentemente, de maneira análoga, o esmalte prata também é usado na heráldica para representar o campo vazio. Em uma leitura simbólica, essa austeridade visual reflete a simplicidade e a humildade na vida espiritual.
Neste contexto, o Tau é o símbolo original da espiritualidade franciscana. São Francisco de Assis o tomou como um sinal significativo da penitência e da redenção, e passou a assinar suas cartas com ele. Trata-se da última letra do alfabeto hebraico (ת). Em sua forma proto-sinaítica, o Tau apresenta uma inconfundível forma de cruz, sendo assim o glifo mais antigo nesse formato. De sua variante fenícia, originaram-se a décima nona letra do alfabeto grego e o T latino. Nas Sagradas Escrituras, é usado como um selo de Deus para marcar pessoas e coisas. É identificado como a marca de sangue de cordeiro no capítulo 12 do livro do Êxodo, e marca também a fronte dos servos de Deus no capítulo 7 do Apocalipse, embora seja mencionado nominalmente apenas no capítulo 9 do livro do Profeta Ezequiel. É nessas referências bíblicas que se fundamenta a preferência por grafá-lo em cor vermelha.
O mantelado triplo de azul representa o maphorion de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, uma vestimenta que é como um longo manto, que cobre o corpo mas também a cabeça. Na iconografia oriental, ele é tradicionalmente tingido de um vermelho terroso, cor que simboliza o gênero humano, criado a partir do barro. A escolha da cor azul para essa indumentária no ícone milagroso do Perpétuo Socorro é, portanto, incomum, aproximando-se mais da tradição latina, embora a obra apresente um estilo e origem comprovadamente cretenses. No manto figuram três estrelas, sendo uma na fronte e as outras duas sobre os ombros. Elas simbolizam o dogma da Virgindade Perpétua de Maria: ela é virgem antes, durante e após o parto. O conjunto é disposto de maneira triangular, sinalizando a ação da Santíssima Trindade.
A sobreposição do manto ao escudo simboliza o amparo e patrocínio da Mãe de Deus. Também convém apontar que, coincidentemente, o contorno inferior do mantelado produz um formato semelhante ao de uma letra M maiúscula. Figurativamente, estar sob o manto de Maria significa beneficiar-se de sua proteção. A arte cristã já expressou-se assim muitas vezes antes, em pinturas e esculturas com pessoas (incluindo outros santos), individualmente ou em grupo, abrigando-se debaixo do manto de Maria Santíssima. Esse tema artístico recebeu o nome de “Mãe de Misericórdia” ou “Nossa Senhora das Mercês”.
Inspirado pelo zelo dos santos, o cristão deve também recordar-se de seu compromisso com o próximo. O cuidado com a Casa Comum é um tema de especial importância para o clero amazônico e, conforme seu carisma, para a Ordem dos Frades Menores. A boa relação entre os seres humanos e as demais criaturas diz respeito à nossa vocação primordial, e remonta a quando nossos primeiros pais foram postos no Éden, para administrá-lo com harmonia. Não basta, portanto, que os cristãos se engajem na causa ambiental apenas por questões políticas ou mesmo por sua sobrevivência. Antes de tudo, trata-se de como retribuímos ao magnânimo Deus, que criou todas as coisas por amor e nos confiou essas responsabilidades.
Na natureza, ordenada pelo Criador, tudo tem sua razão de ser. O ser humano observa as características das criaturas e as interpreta como sinais que apontam para uma realidade mais profunda. Ele cultiva com carinho essa noção de que todas as coisas falam de Deus, assim como a obra humana transmite lições e reflete o estilo de seu autor. Essa visão é, igualmente, o alicerce do Cântico das Criaturas, que neste ano de 2025 celebra seu octingentésimo aniversário. Composto com sensibilidade mística, esse tesouro espiritual deve inspirar cada vez mais o mundo de hoje, desencantado de uma visão simbólica do cosmos e ameaçado pela crise ambiental.
Também a arte heráldica atribui significado às figuras das coisas criadas. No brasão, o pé ondado e endentado de negro e de ouro é uma abstração visual do encontro dos rios Negro e Solimões. Contudo, mais do que aludir a um fenômeno natural ou a uma atração turística, essas peças emblematizam a cultura do encontro preconizada pelo Sumo Pontífice. Naquele espetáculo natural, os dois rios, com diferenças notáveis em velocidade, temperatura e pH, correm juntos por cerca de 6 quilômetros. Esse lugar, repleto de vida, abriga uma flora e fauna exuberantes e nutre, com carinho, a existência humana ao seu redor. De maneira análoga, a cultura do encontro aponta para a paz em uma sociedade cada vez mais fragmentada e violenta, que põe em risco a harmonia necessária para gerar e sustentar a vida. Tal como o encontro dos rios, essa trajetória inicia-se pela superação da exclusão social e culmina na integração entre diferentes grupos, preservando o respeito às diferenças. Em vez do embate competitivo, frio e desprovido de empatia, há a busca comum pelo Sumo Bem, pautada pela Boa Nova, que promove a reconciliação e a unidade. O próprio Cristo testificou a perenidade desses valores ao declarar: “Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a terra” (Mt 5, 4).
Concluo afirmando que é da minha vontade que este brasão seja mais do que uma marca identificadora; desejo que ele se apresente como um testemunho visual da missão e dos valores que fundamentam o ministério de Dom Samuel. Rogo a Deus, pela intercessão especialíssima da Mãe do Perpétuo Socorro, para que a atuação pastoral de Dom Samuel seja fonte segura de paz e salvação para o rebanho que lhe for confiado. Recomendo-me às suas orações, para que eu também persevere. Que o Senhor faça sempre resplandecer, por estas armas e seu portador, a Verdade luminosa de seu Evangelho.
