Este ensaio do escritor britânico Gilbert Keith Chesterton, originalmente intitulado “A Defence of Heraldry”, foi publicado primeiramente em 18 de maio de 1901, no periódico britânico The Speaker. No mesmo ano, o texto foi republicado com revisões e ampliações, na coletânea The Defendant, editada em Londres por Reginald Brimley Johnson. A presente tradução livre foi realizada a partir da segunda versão, sendo também de minha autoria as notas de rodapé que a acompanham.

Fotografia do autor em 1900.
A visão moderna acerca da heráldica é representada com bastante precisão pelas palavras do famoso advogado que, depois de interrogar durante algum tempo um venerável dignitário do Heralds’ College1, resumiu suas conclusões na observação de que “aquele velho tolo sequer entendia seu próprio ofício tolo”.
A heráldica propriamente dita era, é claro, toda uma instituição restrita e aristocrática, mas essa observação exige uma espécie de ressalva que não costuma ser percebida. Em certo sentido, existia uma heráldica plebeia, pois cada casa comercial, assim como cada castelo, era distinguida não por um nome, mas por um emblema. O sistema inteiro remonta a uma época em que a escrita por imagens ainda dominava verdadeiramente o mundo. Naqueles dias, poucos sabiam ler ou escrever; eles assinavam seus nomes com um símbolo pictórico, uma cruz — e uma cruz é um grande aperfeiçoamento ao nome da maioria dos homens.
Ora, há algo a ser dito sobre a peculiar influência dos símbolos pictóricos na mente humana. Todas as letras, segundo aprendemos, eram originalmente pictóricas e heráldicas: assim, a letra A é o retrato de um boi2, mas esse retrato é hoje reproduzido de maneira tão impressionista que pouco da atmosfera rural pode ser absorvido por sua contemplação. Contudo, enquanto alguma qualidade pictórica e poética permanece no símbolo, o uso constante dele deverá contribuir de algum modo para a educação estética daqueles que o empregam. As casas públicas3 são hoje quase os únicos estabelecimentos que ainda utilizam as antigas insígnias, e a misteriosa atração que exercem pode ser explicada (pelos otimistas) dessa maneira. Há tavernas com nomes tão oníricos e requintados que até mesmo Sir Wilfrid Lawson4 poderia hesitar à porta por um instante, permitindo que o poeta entrasse em conflito com o moralista.
Assim acontecia com as imagens heráldicas. É impossível acreditar que o leão vermelho5 da Escócia atuasse sobre aqueles que o empregavam apenas como uma conveniência desprovida de significado, semelhante a um número ou a uma letra; é impossível acreditar que os reis da Escócia teriam aceitado alegremente substituí-lo por um porco ou um sapo. Existem, como dissemos, certas vantagens verdadeiras nos símbolos pictóricos, e uma delas é que tudo o que é pictórico é sugestivo sem precisar nomear ou definir. Há um caminho que vai dos olhos ao coração sem passar pelo intelecto. Os homens não discutem sobre o significado dos pores do sol; eles jamais disputam se o espinheiro-branco6 diz a coisa mais bela e espirituosa a respeito da primavera.
Por isso, nos antigos tempos aristocráticos, existia esse vasto simbolismo pictórico de todas as cores e graus da aristocracia. Quando soou a grande trombeta da igualdade, quase imediatamente depois foi cometido um dos maiores erros da história da humanidade. Pois todo esse orgulho e vivacidade, todos esses símbolos imponentes e cores flamejantes, deveriam ter sido estendidos à humanidade. O vendedor de tabaco deveria ter tido um timbre, e o queijeiro, um grito de guerra. O merceeiro que vendesse margarina como se fosse manteiga deveria sentir que havia uma mancha7 no escudo dos Higgins. Em vez de fazer isso, os democratas cometeram o erro espantoso — um erro que está na raiz de toda a enfermidade moderna — de diminuir a magnificência humana do passado, em vez de aumentá-la. Não disseram, como deveriam ter dito, ao cidadão comum: “Você é tão bom quanto o duque de Norfolk”, mas empregaram aquela fórmula democrática mais mesquinha: “O duque de Norfolk não é melhor do que você”.
Pois não se pode negar que o mundo perdeu algo, definitiva e lamentavelmente, por volta do início do século XIX. Em tempos anteriores, a massa do povo era concebida como humilde e comum, mas apenas comparativamente humilde e comum; ela era diminuída e eclipsada por certas posições elevadas e vocações esplêndidas. Mas com a era vitoriana, surgiu um princípio que concebia os homens não como comparativamente, mas como positivamente humildes e comuns. Um homem de qualquer condição passou a ser representado como sendo, por natureza, uma pessoa apagada e trivial — uma pessoa nascida, por assim dizer, de chapéu preto. Começou-se a pensar que era ridículo um homem vestir roupas belas, em vez de considerar ridículo — como naturalmente é — que ele deliberadamente vestisse roupas feias. Considerava-se afetado que um homem pronunciasse palavras ousadas e heroicas, quando, naturalmente, é a fala emotiva que é natural, e a linguagem civil ordinária que é afetada.
Todas as relações entre beleza e feiura, dignidade e ignomínia foram viradas de cabeça para baixo. A beleza tornou-se uma extravagância, como se cartolas e guarda-chuvas não fossem a verdadeira extravagância — uma paisagem da terra dos goblins8. A dignidade tornou-se uma forma de tolice e desvergonha, como se a essência mesma de um tolo não fosse a falta de dignidade. E a consequência é que, na prática, tornou-se muito difícil propor qualquer decoração ou dignidade pública aos homens modernos sem fazê-los rir. Eles riem da ideia de portar timbres9 e cotas de armas10, em vez de rir de suas próprias botas e gravatas. Somos proibidos de dizer que os comerciantes deveriam ter uma poesia própria, embora não exista nada tão poético quanto o comércio. Um merceeiro deveria ter um brasão digno de suas estranhas mercadorias, reunidas de terras distantes e fantásticas; um carteiro deveria ter um brasão capaz de expressar a estranha honra e responsabilidade do homem que carrega as almas dos homens dentro de uma bolsa; o farmacêutico deveria ter um brasão que simbolizasse algo dos mistérios da casa de cura, a caverna de uma feitiçaria misericordiosa.
Houve, durante a Revolução Francesa, uma classe de pessoas de quem todos riam, e de quem provavelmente era difícil, na prática, deixar de rir. Eles tentaram erigir, por meio de enormes estátuas de madeira e festivais inteiramente novos, as mais extraordinárias religiões novas. Eles adoravam a Deusa da Razão11, que parece ter sido, mesmo concedendo-lhes o mais amplo reconhecimento de suas muitas virtudes, a divindade que menos lhes sorriu. Mas esses maníacos saltitantes, deserdados tanto pelo velho mundo quanto pelo novo, eram homens que haviam percebido uma grande verdade, desconhecida tanto do novo mundo quanto do velho. Haviam percebido aquilo que estava oculto aos sábios e entendidos, a toda a civilização democrática moderna, até os nossos dias. Compreenderam que a democracia precisa ter uma heráldica, que ela precisa ter um cerimonial orgulhoso e de cores vivas, se quiser manter sempre diante de sua própria consciência a sua sublime missão. Infelizmente, para esse ideal, o mundo seguiu, nessa questão, a democracia inglesa ao invés da francesa; e aqueles que olharem retrospectivamente para o século XIX, certamente o verão como nós vemos o reinado dos puritanos: como o tempo dos casacos pretos e dos temperamentos sombrios. Pela estranha vida que levaram os homens daquela época, poder-se-ia pensar que estavam assistindo ao funeral da liberdade, e não ao seu batismo.
No momento em que realmente acreditarmos na democracia, ela começará a florescer, assim como floresceu a aristocracia, em cores e formas simbólicas. Jamais faremos algo da democracia enquanto não estivermos dispostos a fazer papel de tolos. Pois, se um homem não é realmente capaz de fazer um tolo de si mesmo, podemos ter absoluta certeza de que tal esforço é supérfluo.
- O College of Arms é a instituição heráldica oficial da Inglaterra, País de Gales, Irlanda do Norte e grande parte da Commonwealth, incluindo a Austrália e a Nova Zelândia. Responsável pela concessão e pelo registro de brasões, além de pesquisas genealógicas. 🔗 ↩︎
- Referência à origem pictográfica da letra A, que remonta ao glifo aleph (𐤀), dos antigos alfabetos semíticos. Seu nome significava “boi”, e o sinal gráfico deriva de uma representação estilizada da cabeça desse animal. Transmitido aos gregos por intermédio do alfabeto fenício, o aleph deu origem à letra alfa (Α) e, posteriormente, ao A latino. ↩︎
- No inglês, public-houses. O autor se refere aos estabelecimentos dedicados ao serviço de bebidas e à convivência social, conhecidos como pubs. ↩︎
- Sir Wilfrid Lawson (1829–1906), 2.º baronete de Brayton, foi um político liberal britânico e destacado defensor do movimento da temperança, que combatia o consumo de bebidas alcoólicas. Promoveu propostas legislativas destinadas a permitir que as comunidades locais proibissem a venda dessas bebidas. ↩︎
- O brasonamento das armas da Escócia é o que se segue: “De ouro, um leão rompante de vermelho, armado e lampassado de azul, dentro de uma dupla orleta florida e contraflorida de vermelho.” ↩︎
- No original, hawthorn. Designação inglesa de arbustos e pequenas árvores espinhosas do gênero Crataegus, pertencentes à família das rosáceas. Na Grã-Bretanha, o termo refere-se especialmente ao espinheiro-branco (Crataegus monogyna), característico das paisagens rurais, conhecido por suas flores brancas e pequenos frutos avermelhados. ↩︎
- O autor refere-se aos chamados abatimentos: determinadas figuras ou alterações heráldicas que, segundo certos tratados antigos, poderiam ser impostas aos brasões como sinal de desonra, em punição por atos considerados imorais ou criminosos. A aplicação histórica dos abatimentos, contudo, é objeto de controvérsia entre os estudiosos da heráldica, especialmente no que diz respeito à frequência e às circunstâncias em que teriam sido efetivamente empregados. ↩︎
- Criaturas fantásticas do folclore europeu, especialmente britânico, que são geralmente descritas como pequenos seres de aparência grotesca, travessos ou malévolos. Presentes na literatura muito antes de Chesterton, os goblins foram posteriormente incorporados à ficção moderna, especialmente nas obras de J. R. R. Tolkien, nas quais aparecem associados à exploração laboral sem escrúpulos e aos aspectos destrutivos da industrialização. Essa maneira de representação influenciou também o mundo dos jogos de roleplay e digitais, bem como outras manifestações da cultura popular contemporânea. ↩︎
- O timbre, crest no original, é um elemento heráldico colocado sobre o elmo, como um grande ornamento, permitindo que seu portador fosse visto e identificado à distância. Timbres apresentavam formas e cores consideradas extravagantes, mesmo para aquele tempo, mas isso atendia a uma finalidade prática. ↩︎
- No inglês, coat-of-arms. É como se chama a veste trajada pelos nobres em combate, sobre a armadura, que ostentava seus dispositivos heráldicos. Com o tempo, a expressão passou a ser utilizada também para designar as representações artísticas do brasão, independentemente do suporte em que fossem reproduzidas. ↩︎
- O Culto da Razão foi um movimento secular e anticlerical promovido durante a Revolução Francesa, especialmente em 1793, que procurava substituir as práticas religiosas tradicionais pela celebração da razão humana e dos ideais revolucionários. A chamada Deusa da Razão era uma figura alegórica, personificada por mulheres em cerimônias públicas. Para Chesterton, essa referência tem também um sentido irônico: a tentativa de substituir a religião por um culto à razão acabou recorrendo a símbolos e performances rituais semelhantes aos das práticas religiosas que pretendia superar. ↩︎
